sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Pantera - Rilke - Trad. Augusto de Campos



A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)

(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Lindo texto de Ferreira Gullar

Vou falar hoje de um assunto que talvez não seja assunto de crônica, mas, como já disse que ninguém sabe o que é crônica, vou falar assim mesmo. O assunto é o poema, uma tese sobre o poema, coisa que possivelmente não interessa a ninguém e, quem sabe, por isso mesmo eu deva falar dele.

Costumo dizer que o poema não vale nada. Não vale nada no mercado. Pouca gente compraria um poema e, se comprasse, seria barato, ou seja, ao preço do mercado. Não obstante, nem tudo é o mercado. Há mais espaços na vida do que sonha a nossa vã filosofia.

Por exemplo, quando estava eu no exílio, conheci um sujeito, economista, casado com uma linda morena brasileira. Ele e ela freqüentavam regularmente aquelas reuniões um tanto fossentas de exilados. Reuniões que não eram tão alegres quanto os papos no Jangadeiros ou no Vermelhinho, mas era o que tínhamos e, em certas situações, é melhor alguma coisa do que nada. Há divergências, é claro.

Pois bem, nessas reuniões o marido da brasileira bonita, que era talvez chileno ou espanhol, costumava sentar-se ao meu lado e puxar conversa sobre economia. Citava números, estatísticas, percentagens, leis do mercado e eu, sem muita alternativa, escutava. Até chegar o momento azado em que pedia licença a pretexto de ir ao banheiro ou apanhar uma bebida e não voltava mais. E eis que, inesperadamente, me contam que a tal morena brasileira deixara o economista por um argentino. Pensei logo comigo: na próxima reunião, se ele aparecer por lá, vai ser pior ainda, aí é que grudará comigo o tempo todo.

E chegou esse dia. Fui para a reunião disposto a escapar do sujeito a qualquer preço e consegui por algum tempo. Quando já estava no terceiro copo de cerveja, distraí-me e ele se sentou a meu lado. E sabem o que aconteceu? Não falou um só palavra de economia -só falou de poesia, assunto que dominava muito bem. Falou-me de seus poetas preferidos, que eram alguns de língua espanhola, outros franceses, ingleses ou italianos. Sabia de cor poemas de Eliot e de Fernando Pessoa.
- Estou relendo meus poemas queridos, confessou.

E então entendi: é que a morena tinha ido embora e, quando a morena vai embora, meu caro, só a poesia nos socorre. É então que ela se torna necessária. Se tudo corre bem, a economia basta, mas, se a morena se vai, não há economia, nem trigonometria, nem geografia, ecologia, paleontologia que dê jeito. Só mesmo a poesia. Com isso fica demonstrado por que a poesia vale pouco no mercado: trata-se de um bem de consumo conspícuo. Mas, como os poetas não escrevem para ganhar dinheiro, essa pouca valia não os desencoraja.

Esse é um aspecto deste assunto que não interessa a ninguém; o outro aspecto é que, além de valer tão pouco, o poema não é inevitável. Explicando melhor: qualquer poema que tenha sido escrito -ainda que seja "A Divina Comédia"- poderia não ter sido escrito e, além disso, poderia ter sido escrito de outro modo, poderia ser outro!

Vou dar um exemplo doméstico. Certa vez, escrevi um poema inspirado na lembrança de minha casa de infância em São Luís do Maranhão; uma casa antiga, soalho de tábuas corridas e corroídas, com algumas fendas por onde costumavam sumir minhas poucas moedas.

Mas uma manhã caiu-me da mão uma moeda de um cruzado (aquele velho cruzado, aliás velhíssimo cruzado) e desapareceu por uma das fendas do soalho. Decidi recuperá-la: aproveitando o fato de que uma das tábuas do cômodo estava solta, meti-me por baixo do soalho e fui me arrastando no pó negro ali depositado, que talvez por quase um século não visse a luz do sol e exalava insuportável fedor de mofo. Recuperei a moeda, mas nunca mais esqueci aquela aventura. O poema não contava essa história, mas falava da "noite menor sob os pés da família" e da "língua de fogo azul debaixo da casa".

Isso foi em 1970. Meses depois, tive que ir para a clandestinidade e, um ano depois, para o exílio. Fui parar em Moscou. E lá, de repente, ao lembrar-me do poema, verifiquei que o perdera. Inconformado, resolvi escrevê-lo de novo e o consegui, tanto que ele foi publicado no meu livro "Dentro da Noite Veloz", editado em 1975, quando eu já estava em Buenos Aires.

Muito bem. Volto para o Brasil em 1977 e, remexendo velhas pastas que aqui haviam ficado, encontro o poema dado por perdido. Para minha surpresa, era bastante diferente do segundo, escrito em Moscou. O que significa isso? Significa, sem dúvida, que os poemas não têm uma forma inevitável e, como forma e conteúdo são indissociáveis, tampouco seu conteúdo é inevitável. Se, naquele dia em Moscou, eu tivesse encontrado o primeiro poema, não teria escrito o segundo, e aquele ficaria como o único poema possível sobre o tema, conclusão equivocada, conforme acabo de demonstrar, pois, como sugeriu Mallarmé, o poema é um lance de dados que jamais eliminará o acaso.

E digo mais: o poema não é a expressão do que se viveu ou experimentou. Se eu sinto um cheiro de jasmim na noite e escrevo um poema sobre esse fato, o que faço não é expressar tal experiência, mas, na verdade, usá-la como impulso para inventar uma coisa que não existia antes: o poema, o qual se somará a todas as galáxias, planetas, cometas, oceanos e tudo o mais que exista no universo. E o universo será, a partir de então, tudo o que já era mais aquele pequeno agregado de palavras, nascido de um perfume.

Ferreira Gullar

Fonte: Folha Ilustrada - 19.06.2005

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Cariri - Eu meio místico

Às vezes, acho que crer em Deus é mais fácil em determinados lugares, em determinadas paisagens. Esse Deus que conforta, se é que ele existe, necessita de horizontes para se revelar. Precisa do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, das alvoradas e do Pôr-do-Sol. Ah, como Deus é impossível nas metrópoles! Sem horizontes, sem espaços livres, ele se perde atrás dos prédios, dos relógios, dos vidros escurecidos, se confunde com os anúncios gigantescos e coloridos. Da janela de um ônibus lotado às 6 da tarde, fica difícil entrevê-lo, e nos 20 minutos de almoço, ele nem mesmo tem tempo de se esboçar em uma de suas infinitas formas! Uso uma frase de Camille Claudel para falar das cidades:"há sempre alguma coisa de ausente que nos atormenta". A cidade só pode ver Deus em sua forma mais terrível, nas tempestades e catástrofes, na natureza em fúria afirmando nossa pequenez e revelando o ridículo do orgulho humano.




Agora estou em São Paulo. Faz poucas horas, estava aos pés da estátua de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Já estive por 4 vezes me apresentando na região do Cariri e foi paixão à primeira vista! É como se eu entendesse tudo que move a vida por lá. Tenho amigos, conheço as ruas e os caminhos, sei negociar preço com os taxistas, dou informações na rua e meu sotaque se modifica depois de algumas horas por lá. Até promessa faço, depois me esqueço do que prometi, mas pago de outra forma.
Do auto do Horto, onde está plantada a aparentemente horrível estátua, pode- se ver Juazeiro, Crato e Barbalha e a serra do Araripe que parece ter sido desenhada no horizonte por um daqueles arquitetos modernistas.

O que faz a beleza do horto são justamente as manifestações de fé, as milhares e milhares de fitas amarradas à imagem do padre, os chumaços de cabelo, as velhas beatas e aquela estética romeira, de santinhos, escapulários e cópias baratas do coração de Jesus com luzinhas coloridas.


Juazeiro do Norte, fundada por romeiros e pelo padre Cícero é uma cidade comercial. Na subida da serra que leva ao horto existe um conjunto de casinhas características da região, coloridas, com as portas sempre abertas, com altares na parede da frente e com gente sentada na porta. Todos fazem questão de nos cumprimentar em sinal de cordialidade. Existe uma doçura irresistível no ar. A cidade respira uma espécie de fé jocosa, de crença malandra, de permanente penitência em festa.
O Crato é uma cidade rica em manifestações culturais.Seus moradores se orgulham de nela terem nascido, chamam - na "Cratinho de açucar", "meu amado Crato"e expressam com frequência, uma espécie de divertido menosprezo histórico pelo Juazeiro.
Barbalha é uma preciosidade. Cidadezinha antiga onde ainda é possível assistir aos ritos dos penitentes.


A foto acima é da casa do Mestre Noza, uma espécie de cooperativa de artesãos, um ponto de cultura onde vários artistas se reúnem, trabalham o dia todo e vendem suas obras. Parece que estamos entrando num universo paralelo. Milhares de figuras de madeira, formas primitivas, bonecos, imagens, todas misturadas numa festa de cores e formas "caoticamente organizadas."

bodas de sangue



Bodas de Sangue no Teatro Ventoforte

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Paciência da criação e fé

PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO - Jacques Prévert


Primeiro pintar uma gaiola

com a porta aberta,

pintar depois

algo de lindo,

algo de simples,

algo de belo,

algo de útil

para o pássaro

depois dependurar a tela numa árvore

num jardim

num bosque

ou numa floresta

esconder-se atrás da árvore

sem nada dizer

sem se mexer...

Às vezes o pássaro chega logo

mas pode ser também que leve muitos anos

para se decidir.

Não perder a esperança,

esperar,

esperar se preciso durante anos.

A pressa ou a lentidão da chegada do pássaro

nada tendo a ver

com o sucesso do quadro.

Quando o pássaro chegar,

se chegar,

guardar o mais profundo silêncio

esperar que o pássaro entre na gaiola

e quando já estiver lá dentro

fechar lentamente a porta com o pincel

depois

apagar uma a uma todas as grades

tendo cuidado de não tocar numa única pena do pássaro

Fazer depois o desenho da árvore

escolhendo o mais belo galho

para o pássaro

pintar também a folhagem verde e a frescura do vento

a poeira do sol

e o barulho dos insetos pelo capim no calor do verão

e depois esperar que o pássaro queira cantar

Se o pássaro não cantar

mau sinal

sinal de que o quadro é ruim

mas se cantar, bom sinal,

sinal de que pode assiná-lo.

Então você arranca delicadamente

uma das penas do pássaro

e escreve seu nome num canto do quadro

Adélia Prado 6 Religare




Bulha
(...) Como é possível que a nós, mortais, se aumente o brilho nos olhos
porque o vestido é azul e tem um laço?
(Poesia Reunida, p.116.)


Paixão
De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos,não é a bola bonita caminhando
solta no espaço.
(Poesia Reunida, p.199.)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Dinho Lima Flor


O que é um ator popular? Alguém que atua por transbordamento. Suas idéias, seus gestos, suas falas, decorrem necessariamente de sua ânsia irrascível de comunicação com o mundo. Desejo de movimentar o espaço, de abrir as janelas e dançar e cantar e dizer, dizer, dizer....Sua história, seu quintal, suas cantigas de ninar, seus devaneios precisam mostrar- se e encontrar a luz do sol.


Seu resultado de forma imperfeita permite ao espectador enxergar a medula da forma. Sua voz rasgada permite ao público perceber a raiz do canto e do grito, sua dança faz cair a chuva e celebra as noites de lua cheia. A arte é vida e tão necessária quanto o pão nosso de cada dia!